É o que é
sobre a arte de nos vigiarmos mais antes de mandar uma opinião qualquer
Não sei se lá leram “A Arte de Não Ter Sempre Razão”, de Martin Desrosiers, editado pela Zigurarte, um livro que não vai vender nada. Digo-o cheio de vigorosa opinião, algo que o livro questiona, na sua tese, bem defendida, de apelar a uma discussão, no plano público, mas também no plano privado, mais aberta, mais pluralista, mais aceitadora das opiniões contrárias. E o livro não vai vender nada - digo eu, com a mais musculadas das certezas, já a puxar à indignação se for contrariado - porque é o livro com a tese que este mundo menos quer aceitar. A de que a nossa opinião é contingente, não vale tanto como achamos que vale e que defendê-la como histérico empreendimento, como todos os dias se faz, é contradizer, no plano das acções, a democracia pluralista como merece ser vivida. Não me interpretem mal: a opinião é uma das coisas mais importantes do mundo - é a realização no concreto de um exercício de liberdade que os piores regimes reprimem. Mas também, e interpretem-me como quiserem, é das coisas menos importantes do mundo, quando quem a diz fá-lo sem perceber que a diz a partir de uma posição relativa. Porque tudo isto - o largo desta aldeia universal - está tão cheio de opiniões que já ninguém ouve ninguém. Martin - coitado, que até teve uma boa ideia ao escrever este pequeno ensaio - di-lo de uma forma parecida: “A democracia morre no silêncio, é certo, mas pode igualmente perder-se na cacofonia de um diálogo de surdos”. O debate sem racionalidade e sem moderação que pulula em todas as esquinas é um mau exercício que se faz às comunidades e a uma existência que se preze - com o mínimo de lucidez, digo. Por isso, observa o canadiano Desrosier, é decisivo ensinar os alunos nas escolas a não ter razão. “Na prática, cada vez tenho mais a impressão de que os estudantes são treinados para se tornarem bons pugilistas da argumentação, quando se lhes devia ensinar também, e sobretudo, a não ter sempre razão”. É fundamental “não ter razão”. Ou, pelos menos, perceber que o que temos é um ângulo, uma imperfeição mental e verbal sobre uma totalidade. E que para integrarmos isso é necessário, antes de mais, baixar o tom de voz (ideia minha, apelando à necessidade de evitar a casa sonotone). Podia passar mais uns parágrafos a citar este senhor das Filosofias da Universidade de Montréal - também ele, coitado, só vai ser lido neste artigo-, que ficaria satisfeito. Sublinhei várias passagens com um lápis suave (mais ou menos). “Uma pessoa intelectualmente astuta que persegue fins ignóbeis, ou cujas intenções são duvidosas, ou que não tem uma vontade suficientemente firme para ultrapassar os seus interesses egoístas, nunca será inteligente no sentido forte do termo”. Portanto, e é verdade, há por aí muitos burros com potencial, orgânico e de elasticidade mental, para serem inteligentes. Falta-lhes é o carácter - trata-se disto também - para suspenderem o ego na altura de conjecturar e arremessar um ponto de vista.
“A humildade tem propriedades anti-inflamatórias: impede o nosso orgulho de inchar”. A certa altura, Martin, humildemente, sem se afirmar como humilde (correndo o risco, se o fizesse, de perder a humildade), abre a porta para Montaigne, o primeiro ensaísta, aquele que pediu para, antes de abrirmos o microfone, acertamos no caminho para a autoanálise. Se há uma coisa que nos devia ocupar - nós, os que falamos, os que discutimos, os que escrevemos, os que opinamos - era aprender a pensar melhor e a expressar melhor essa opinião. Uma opinião não é uma visão. É o que é. E deve ter a consciência de que é o que é. A certa altura, chega a importância de integrar a contradição no nosso pensamento e na partilha desse pensamento. Que medo existe de assumir contradição. No plano das ideias, e claro que falo em tudo o que não ponha em causa os Direitos Humanos, um limite material que não deve ser anulado, sem contradição não há complexidade de pensamento. Há esquema, há setinha. Muitas vezes transformados numa verbosidade insuportável, interminável e intragável, sem uma ponta de racionalidade, ou seja formada nos mais frágeis dos nossos instintos e das nossas afeições. Não é pecado nenhum, mas, agora viciei-me neste significativo lugar-comum, é o que é. E poder mudar de opinião e de o assumir? Ah, que perigo. Quando não devia ser. Só quem está demasiado apegado a crenças - da ordem do afectivo - pode achar que nunca pode mudar de crença. Os sentimentos são volúveis - num dia quanto mais em dez anos. É o sacrista do Montaigne que o diz - ele que fique com a responsabilidade: “A obstinação e o ardor da opinião são a prova mais segura da estupidez”. Ele é que nos chamou de estúpidos, inviabilizando qualquer debate (não sei se topou esta contradição, o Michel). Tudo isto - e já me aproximando do final de uma expandida reflexão sobre um livro mínimo (outro erro) - para deixar uma nota: fundamentalíssimo é manter uma desconfiança em relação à nossa gritaria, mesmo aquela afirmada em modo sereno. Passe o facilitismo de expressão, assegurar a intolerância em relação à nossa intolerância para quem nos contraria, seja numa caixa de comentários, seja num chá, seja num estúdio, seja aqui, e abrirmo-nos à curiosidade e ao silêncio (também faz bem, logo pela infância). Somos todos peões e estamos aqui à procura de uma verdade (qual verdade?) qualquer. É o que é.



