Um miúdo
Uma nota sobre um autor
Lobo Antunes tinha uma característica que o colocava entre os maiores. Entregava-se à escrita de modo ao mesmo tempo humanamente desprotegido e humanamente enciclopédico. Ou seja: não ficava à porta, na zona de rebentação. Falava de amor, desejo de amor, perda de amor com a coragem, por vezes infantil, outras à maneira de um velho, dos que sabem ou se diz tudo ou o melhor é tirar apontamentos. Nesse sentido, já não faz parte de um tempo em que o cinismo - muitas vezes na sua modalidade alarve - é a marca dias e é a atitude mais confortável para se estar e dizer. Outra marca que o diferenciava era a circunstância, além de tratar a vida por tu, de chamar a cultura histórica, sobretudo a ocidental, por tu. Há textos em que cita, cita muito, autores vários, não por exibicionismo (chega a pedir desculpa por tanto citar) mas porque esses autores faziam parte do seu dia-a-dia. Eram como vizinhos a quem pedia um pé de salsa. De resto, era contraditório como poucos, apesar das sentenças de entrevista. Tanto era o rapaz tímido que muda todos os dias de turma como o aluno que fala com mais certezas do que o professor. Não disse tudo e o seu contrário mas contrariou grande parte do que disse. Tanto ouvimo-lo dizer que só ele ou o livro (um dos seus) tinham a chave para a compreensão do narrado como era de deixar ao leitor as liberdades da interpretação. É de desconfiar do que de si dizem os autores maiores, essas crianças, para sempre, difíceis.



